Crédito foto : felipe Gaieski

A mãe do menino submetido à terapia celular relata melhorias comportamentais do filho em casa e na escola

Um menino português de cinco anos de idade, diagnosticado com autismo, realizou em agosto de 2022 um tratamento com células-tronco do sangue do cordão umbilical com o objetivo de melhorar a sua condição. O procedimento foi realizado no Hospital da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, através do Protocolo de Acesso Expandido (Expanded Access Protocol – EAP) ligado a um ensaio clínico na área do autismo e paralisia cerebral, liderado pela professora e doutora Joanne Kurtzberg, especialista de renome internacional em hemato-oncologia pediátrica e pioneira no uso do sangue do cordão umbilical como alternativa aos transplantes de medula óssea para doenças hematológicas.

De acordo com a mãe do menino, Liane Paixão, “desde que o Salvador foi submetido ao tratamento, sentimos várias melhorias dele tanto em casa quanto na escola”, relata. “Notamos que está mais atento e concentrado e esperamos que nos próximos meses os progressos sejam ainda mais visíveis e significativos”, afirma Liane, que iniciou o contato com a Universidade de Duke no final de 2019 por ter conhecimento do protocolo paralelo ao ensaio clínico que estava sendo realizado na área de transtorno do espectro autista e da paralisia cerebral com infusão de células-tronco do sangue do cordão umbilical. Nas suas duas gestações, Liane havia armazenado o sangue do cordão umbilical em um banco de tecidos e células-tronco português, a BebéVida.

No início de 2022, após muitas tentativas e diversos relatórios médicos exigidos, Liane conseguiu finalmente que o caso de Salvador fosse aceito no Protocolo de Acesso Expandido da Universidade de Duke. A infusão das células-tronco no menino demorou menos de uma hora, e sem registro de efeitos colaterais nas primeiras 24 horas, o menino recebeu alta e pode regressar a Portugal. Se o tratamento for bem sucedido, espera-se que de 6 a 12 meses após a infusão, o menino possa manifestar melhorias na fala.

O caso de Salvador foi publicado no Parent’s Guide to Cord Blood Foundation, fundação que visa trazer informações atualizadas e independentes sobre o atual cenário de pesquisas e utilização do sangue do cordão umbilical para fins terapêuticos.

Estudos sobre o tema no Brasil

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 160 crianças no mundo possui algum grau do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e apesar de o Brasil ainda não obter números oficiais sobre pessoas com TEA, a estimativa é de que existam cerca de 2 milhões de habitantes no país com essa condição. De acordo com a médica e cientista Karolyn Sassi Ogliari, médica e pós-doutora em Biologia Regenerativa e Células-Tronco pela Universidade de Harvard, os ensaios clínicos têm demonstrado que a utilização do sangue e do tecido do cordão umbilical vêm apresentando benefícios terapêuticos em crianças diagnosticadas com o espectro autista.

“Os ensaios clínicos da Universidade de Duke apoiam-se no fato de que o sangue e o tecido de cordão umbilical, comprovadamente, são capazes de promover a neuro regeneração. Estudos clínicos iniciais mostraram que um grupo de crianças com TEA poderia se beneficiar deste tratamento, que são as crianças sem comprometimento do QI não verbal. Ainda há muitas perguntas a serem respondidas, como qual a melhor célula, e qual a melhor dose, mas o importante é que se está avançando para estudos com um maior número de indivíduos”, explica Karolyn.

Para Karolyn, a terapia com sangue e tecido do cordão umbilical para distúrbios do neurodesenvolvimento é uma técnica promissora que, embora não promova a cura completa, poderia apresentar um avanço considerável em relação à socialização, comunicação e diminuição dos sintomas clínicos. “No Brasil, importantes adequações na legislação foram realizadas, preparando o país para explorar estas novas terapias com células. Precisamos oferecer estas oportunidades à população brasileira: uma tentativa de melhorar a qualidade de vida de pacientes e suas famílias”, afirma.

Sobre Karolyn Sassi Ogliari

Graduada em Medicina pela UFCSPA, Residência Médica em Ginecologia e Obstetrícia pelo HMIPV, Especialista em Reprodução Humana pela EPM-UNIFESP, Doutorado em Ciências pela FM-USP, Pós-doutorado em Biologia Regenerativa e Células-Tronco na Harvard Stem Cell Institute, Boston, EUA. Buscou unir a experiência clínica das áreas de reprodução assistida e obstetrícia, com a formação em pesquisa científica e laboratorial, focando em desenvolvimento e inovação na área da saúde. Possui grande interesse por células-tronco e tecidos perinatais, como se desenvolvem, e como contribuem para a terapia celular e a medicina regenerativa. Fundou o Hemocord, banco de células-tronco e sangue de cordão umbilical, que recentemente, evoluiu para uma empresa de biotecnologia

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